sábado, 28 de janeiro de 2017

AGUARELAS


AGUARELAS
Transição para a pintura

A fase BD foi precedida por uma fase de aguarelas que, ao redimensionarem a própria BD – esta passa a ser encarada como massa colorida e não como desenho que é colorido;; o desenho inscreve-se e participa da própria (estrutura da) imagem: rompe-se com o conceito de vinheta, da imagem interligada, passando cada imagem a ser um ente único, independente em si mesma – encaminham as imagens para a reflexão pictórica, como mostram os desenhos que se debruçam sobre a pintura renascentista. Estes desenhos procuram eliminar todos os elementos supérfluos da imagem, revelando a sua estrutura, a sua organização espacial, como é o caso de “Perspectiva Renascentista I – o triângulo”, baseado na “Santíssima Trindade” de Masaccio. Existe também nestes desenhos o primeiro confronto com a plástica como é o caso de “Nú Deitado” e “Mulher Saindo do Banho” e ainda “Homem de Costas frente a Rectângulo Vermelho”.
Como fase transitiva para a “Meta Pintura”, estes desenhos apresentam, por assim dizer, duas fases distintas: a primeira revela a estrutura do desenho, da linha construtiva da imagem, a segunda integra o desenho, a linha, na possibilidade agregadora da imagem. 
Linha / frotage
"Perspectiva Renascentista I - O triângulo", "Perspectiva Renascentista II – A porta", "O poste", "Rosto em Claro / Escuro", "Mulher de Costas com uma Cadeira"
Linha / plástica
"Homem de Costas Frente a Rectângulo Vermelho", "Nú Deitado", "Mulher Saíndo do Banho"
Frotage / colagem
"Elvis Presley", "Criação do Universo"
Plástica / colagem
"Colgate Bi-Fluor"
Plástica / aguarela Footage / óleo
"Construção Metonímica do Interior de uma Sala com Vulto e sem Telhado, "Vulto Vermelho à Janela", "O Palhaço", "Mulher Olhando o Mar"

O modelo torna-se necessário para a consolidação plástica pura e absoluta – a arte é aqui encarada como pura execução, execução esta que acaba por se libertar completamente da forma, do modelo, porque a pintura começa a mover-se para dentro, para o expressar de uma necessidade interior (que já existia antes) e que é aqui consciencializada (sobretudo a partir de “Mulheres I”).
Essa tomada de consciência é sobretudo feita sobre a memória de uma determinada mulher, no qual o que se pretender registar não é a forma da mulher, mas sim o sentimento que se prende à memória dessa mulher. A arte é elemento de expressão de uma determinada vivência, de um passado que deixou de estar presente e que, por isso mesmo, deixou de ter forma.
Outro aspecto importantíssimo é o tipo de suporte utilizado. O suporte não é escolhido e selecionado com o fim de registar nele uma determinada mensagem, surge nas mãos do artista por puro acaso – são madeiras partidas e aproveitadas para o acto pictórico, são objectos anti-clássicos, anti-convencionais, desprezam as normas de comunicação, do entendimento, porque é do próprio acto pictórico em si do que se trata.
Antes de considerar isoladamente e conjuntamente cada um dos trabalhos inseridos nesta primeira série de mulheres, no qual o que se pretende é registar um sentimento – a pintura é o registar de sentimentos, de pingos de alma -, é necessária a compreensão das aguarelas, porque é aqui que se enunciam os primeiros esboços cromáticos – a forma encarada como massa cromática. Estas aguarelas não surgiram isoladas, co-existiram com o período experimental da BD, nas quais se salientam “Casaco Dependurado”, “Viviane” e “Imagens de uma Galeria de Arte”. “Viviane” surgiu da aguarela “Construção Metonímica do Interior de uma Sala com Vulto e sem Telhado”. As quatro imagens que se juntam para formar uma única, o domínio espacial da mancha cromática sobre o desenho é a todos os níveis notória. Primeiro surge inserida no próprio desenho da forma – a linha é separadora das várias manchas cromáticas -, para logo se libertar da linha e da própria forma. Estas aguarelas serviram para o artista se libertar da linha, do limite sobre a forma e explorar o cromatismo e o gestual. “Homem de Costas frente a Rectângulo Vermelho” e “Vulto Vermelho à Janela” são outros exemplos deste novo conceito – a plástica. Plástica essa que atingiria os seus limites na BD em “Imagens de um Dragão”, que consecutivamente aportaria à “Meta Pintura” que constitui a “Série de Mulheres I”. Três trabalhos, por outro lado, são percursores da abordagem artística vindoura: “Mulher Olhando o Mar” e “S/ Título 1 e 2”. 

Anjo
Perspectiva Renascentista I
Nú deitado
Mulher saindo do banho
Nú frente a rectângulo vermelho
Construção metonímica...
Mulher olhando o mar

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