sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

COLAGEM


      Com “Teatro de um Relógio Colorido” e “Utopia” (1984), o autor revitalizou o seu imaginário. O objectivo permanece fiel ao seu trabalho anterior; o de retratar experiências vividas, embora essa experiência se reflicta no exterior, no social, e procure transformar, adaptar essa mesma experiência ao mundo que o rodeava.
É em “Teatro de um Relógio Colorido” e “Utopia” que utiliza a colagem pela primeira vez. Ambos são capas do fanzine “Anarscripta”1 editado pelo próprio, e serviram de lançamento ao mesmo projecto – mais curto que o esperado, acabando apenas por editar 3 números, com uma tiragem média de 50 exemplares. Este projecto é importante na obra do autor, pois é através dele que se gera a mudança de espírito, necessária à consciência do acto criador. 
Este processo é um processo evolutivo, algo lento que se inicia em 83 com “A Caminho da Broa”, um conjunto de textos que pretendem denunciar a incoerência em que a própria vida parece estar estruturada. Esta denúncia apresenta já uma dose crítica, um olhar sobre o social bastante arguto.
Se até aqui as formas se encontravam presas e controladas pela dor, pela recusa, pela angústia, pela solidão inconformada, por uma luz insípida que apenas nos ofusca ainda mais os horizontes, partindo de “Anarscripta” as formas libertam-se, parecem voar pelo espaço, não se importam com a superfície, apresentam-se incontidas pela dor, o branco domina sobre o negro, sobre a linha, que agora adquire a importância moduladora do espaço, a composição revaloriza-se e dois novos elementos surgem com a nova luz: a colagem e a cor.
“Teatro de um Relógio Colorido” é bem eloquente dessa nova figuração: o elemento humano, os personagens masculinos e femininos, a relação homem / mulher desaparece para dar lugar à relação sujeito / sociedade: a imagem apresenta-nos um relógio de pulso, uma cadeira e nuvens. O relógio, a cores, centra o olhar sobre si, como um desejo. A cadeira colocada no centro do desenho está inserida num quadrado / quadro do qual parece sair o relógio, do qual o tempo parece fugir e no qual as nuvens se perdem, se desfazem no horizonte. A cadeira é uma longa espera. O relógio o desejo de fugir a essa espera, o desejo de sentir verdadeiramente o tempo, o movimento, a acção, que aparece depois explicitada, algum tempo depois, em “Cruzada Belicista” e “O Gato e o Rato”.
Assim, se “Teatro de um Relógio Colorido” desencadeia uma exploração conjunta da linha e da colagem, da conjugação simultânea do preto e branco e da cor, “Utopia” abandona totalmente o desenho e centra-se exclusivamente na colagem.
Existem, assim, formalmente, duas linhas distintas; uma seguindo a exploração linha / colagem / cor e a outra explorando exclusivamente a colagem / cor. Podemos associar à primeira linha obras como “A Lambisgóia”, “A Torre Sangrenta” e as BDs “Produto Acabado”, “A Eternidade”, “Amanhecer Dourado” e “Viviane”. Na linha de “Utopia”, “Cruzada Belicista” e “O Gato e o Rato”, fase que se desenvolveria em “Imagens de um Dragão” até atingir a extraordinária plasticidade de “Elvis Presley” e “Criação de um Universo”, situados já na fase transitiva para a “Meta Pintura”.
Utopia” encerra os jogos do imaginário, a composição do imaginável. Jogam nesta composição vários objectos de uso diário, tais como um espelho, roupa pendurada, o lavatório, as luvas e o fogareiro. É precisamente na combinação destes elementos que algo novo surge. O autor denominou-o de “Utopia”. A utopia é uma realidade ideal, imaginária e inalcançável; ou seja, o real e o imaginário não podem subsistir juntos – o real não pode ser imaginário, nem o imaginário real. Só o real é credível pelos sentidos. Acreditar no imaginário é acreditar numa utopia.
Com a “Lambisgóia” o domínio das relações é levado também ao confronto real / imaginário. A imagem é totalmente imaginária e o real, o elemento feminino, surge como acrescento a esse imaginário. É a tentativa de, através do imaginário, procurar adaptar o social às nossas próprias carências / exigências.
Esta adaptação é conflituosa, envolve uma determinada luta armada, uma determinada destruição para uma nova construção, uma transformação das estruturas, das crenças, da realidade. No entanto, esta “Cruzada Beliscista” é uma cruzada falhada logo no início: o inimigo, o alvo parece esconder-se (“O Gato e o Rato”). No entanto o autor parece aperceber-se de que a estrutura do mundo está podre por dentro, é uma enorme torre que se abre no céu, que sangra por dentro, minada no seu interior – é o mundo interior do sujeito que ameaça romper-se, todo um mundo que nos parecia credível e que subitamente parece querer desvanecer-se ante os nossos olhos (“Torre Sangrenta”).

1.     O fanzine “Anarscripta” teve dois pré-lançamentos com a publicação de três textos: “A Cadeira e o seu Cãozinho”, ilustrada por “Teatro de um Relógio Colorido” (em Março 84), “Utopia” ilustrado com a colagem de mesmo nome (Abril 84) e “Jornal-Eco”, nº zero, que reunia os textos “Manifesto de um escritor Beirão” e “Sopa de Letras”, publicado em Abril e distribuído embrulhado em papel de jornal. O nº 1, “Colectividade Absurda”, surgiria em Junho e em Julho o último número, “Histórias de uma Retrete Bicentina”. De todas as publicações, apenas “Colectividade Absurda” integrou textos de outros autores. +info

 
A Lambisgóia, 1984
O Farsante, 1984
Clamor à LIberdade, 1984
Histórias de uma Retrete Bicentina, 1984
Utopia, 1984
Cruzada Belicista, 1984
O Gato e o Rato, 1984
A Torre Sangrenta, 1984

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