sábado, 4 de fevereiro de 2017

METAPINTURA


A “Meta Pintura” pressupõe o polo oposto ao desenho: enquanto o desenho aporta o delimitar de uma superfície / forma, a expressão de uma ideia, a pintura como acto em si, deve colorir uma superfície, dar cor ao vazio, encher o vazio de sentimento. A forma encerra em si um determinado conceito de leitura, de significação, é delimitada e limite da superfície, pretende encerra-la / encerrar-se numa dimensionalidade concreta. A ausência da forma é a ausência do limite, da dimensionalidade perspectivada. O acto pictórico encerra a perspectiva em si mesmo, fornece leituras e insere dentro de si a superfície / suporte.
Deste modo, nesta série de seis quadros / objectos, é necessário considerar a pintura isolada em si mesma num suporte que pretende concorrer em leitura com o próprio acto que sustenta.
Para perceber a verdadeira dimensionalidade destes trabalhos é preciso recuar um pouco até “Performance Plástica”, primeiro gesto do artista inserido na Performance. O tema é a plasticidade como acto e acção do sentimento. Não se parte do vazio, o quadro a intervencionar não está em branco, está colorido em tons marinhos, a ondulação calma das ondas.
Este princípio será muito importante para os trabalhos que se seguirão, fundamentalmente em dois aspectos: o abandono da classicidade na pintura, o acto pictórico está ligado à consciência da História da Arte, está ligado à consciência e vivência do próprio artista, à experiência dessa vivência e consecutivamente à sua memória.
Os quadros partem (tal como em “Performance Plástica”) de um suporte já intervencionado, quer no caso de possuir uma determinada imagem (origem depois da “Série Mulheres II”, “Morrisey” e “Ama do Homem e do Mundo em Particular”) tal como em “Mulheres I” (1, 2 e 3), ou no caso de o suporte não ser clássico (“Mulheres I – 5”), ou o quadro se apresentar fragmentado (“Mulheres I – 4”).
Nesta primeira série de mulheres – originadora da exposição “Cenas e actos doDesespero” -, aborda-se já a duplicidade plástica-conceptual que viria a marcar futuramente toda a sua obra. A plástica é a imagem dominante, o acto de pintar em si mesmo destituído do seu valor representativo ou significante. A “Série Mulheres II” e “Morrisey” são disso testemunhas, o que interessa é o modo como se pinta aquilo que se pinta.

"Mulher I - 1", 1987

"Mulher I - 5", 1987

"Mulheres II - 1", 1987

"Morrisey", 1987

"Sé", 1987

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